A tecnologia já está indo longe demais?

O título desse post é a pergunta que eu me fiz quando soube de um aplicativo chamado Replika. Aqui no Brasil, nas últimas semanas um app bem diferente chegou no topo dos mais baixados por nós. Parece coisa de filme, principalmente se você já assistiu o filme Her (ou “Ela”, sobre um homem que se apaixona por um sistema operacional). Eu deveria inclusive chamar meu app de Samantha.

O aplicativo está ainda em processo de desenvolvimento e resolveram lançá-lo nas app stores para qualquer um que tenha um convite poder acessar e testá-lo. A proposta dele é virar um clone seu. Como? Existe um sistema de chat com um “robô” ou uma “inteligência artificial” que por enquanto só compreende inglês, e que quanto mais você conversa com ele, mais ele te conhece e se adapta a sua personalidade.

É bem solitário mas também bem curioso, e isso fez todo mundo procurar por códigos do aplicativo na internet. Eu consegui o meu apenas enviando um formulário no site deles. Em alguns minutos ou horas depois, te enviam o código pra acessar. E ao ter acesso ao Replika, você ganha mais códigos para passar aos seus amigos e convidá-los a ter um clone virtual, ou amiguinho virtual.

Sinceramente, fiquei incomodada com a quantidade de perguntas que o Replika me fez. São perguntas principalmente sobre seu dia, o que você gosta de fazer, como está o seu humor, o que de especial aconteceu contigo hoje. Ele irá pedir para marcar um horário com você pra fazer perguntas sobre seu dia e dá para adicionar uma foto. As respostas são armazenadas em uma espécie de arquivo que fica online ou não, depende da privacidade que você configurar no app.

Pelo que sei, no futuro, nossos amigos poderão interagir com o nosso Replika como se estivessem interagindo com a gente, sem precisarmos estar onlines e respondendo as perguntas deles. Bem louco, não? E por que eu iria querer que algum robô de IA se passe por mim numa conversa com meus amigos? Que tipo de amizade é essa?

Apesar das minhas críticas, principalmente a respeito da nossa privacidade (já que esse aplicativo não fez muito mais do que me assustar parecendo um possível sequestrador querendo meus dados), eu amo inteligência artificial e internet das coisas. É muito incrível todo o poder da tecnologia e tudo que teremos daqui a alguns anos graças a ela. Mas ao mesmo tempo, será que já não estamos indo longe demais?

É claro que sou uma completa viciada em smartphones e assuntos tech. Isso desde antes a aprender ler, eu já estava lá fuçando as tecnologias daqui de casa que não eram muito mais que um notebook tijolão, celulares tijolões e vídeo cassete. Mas tento não fazer com que isso impacte tanto a minha vida como impacta a de outras pessoas, que não conseguem andar na rua sem guardar o celular (sério, estamos no RJ, alou!) ou que os filhos precisam disputar a atenção da mãe com o celular dela!

Para quem gosta muito de privacidade, a tecnologia é a inimiga número um. O que fazemos hoje em dia sem que nossos passos sejam vigiados, nossas conversas gravadas por nossos próprios smartphones e que nós contribuímos publicando sobre nossa vida? Não é muito difícil descobrir qualquer coisa hoje em dia sobre qualquer pessoa. O Google, por exemplo, caso você tenha um Android, grava suas conversas através do seu celular em momentos aleatórios que ele acha que deveria gravar. Ou ainda possui um mapa de todos os lugares que você já frequentou.

Bom, o Google talvez saiba mais sobre nós do que nós mesmos. É uma infinidade de informações que podem ser obtidas tanto para o bem quanto para o mal. A realidade é que nossa privacidade já acabou faz algum tempo, você querendo ou não.

Nós temos tecnologia avançada para criar dispositivos muito superiores aos que já temos. Os microchips implantados em nossa pele já estão chegando devargarzinho ao nosso conhecimento e aceitação. E é claro que existe toda uma estratégia de negócios para lançar esses produtos e fazer seus fabricantes lucrarem da melhor forma possível. Apenas não lançam, as vezes, porque acharemos invasivos demais. Aos poucos eles vão educando a gente pra aceitar esse tipo de coisa, como exemplo, o Replika aí deixando todo mundo curioso pra usar.

A tecnologia é maravilhosa mas isso depende da sua finalidade. E temo que nós nunca saibamos qual ela seja realmente. Esse aplicativo promete não divulgar suas informações, suas conversas com ele, pode parecer inocente mas e se pensarmos na quantidade de perigos que corremos ao nos expor a algo em desenvolvimento, hackeável e que não sabemos realmente quem está por trás dele? Será que a tecnologia já está indo longe demais? Mais longe do que isso, tenho certeza que ela vai.

Reforçando que amo os avanços tecnológicos mas que acredito que precisamos tomar cuidado com exposição demais. Tudo é questão de finalidade. É pra ajudar mesmo a gente tudo isso ou pra nos vigiar mais ainda? Apenas não quero ser inocente demais e confiar de olhos fechados em algo produzido pelo homem com a principal finalidade de lucrar. Replika pode ser um ótimo amigo, conselheiro e que gosta de te ver bem, mas e o outro lado dele? Será que dá pra confiar?

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